Crônica 06/06

Avaliação do Usuário
PiorMelhor 

por Wagner Oliveira Melo - 


Que bêbado pensa na cara amassada pela manhã do dia seguinte? Coloquei a roupa, logo a tirei, tomei banho, água gelada, sol lá fora, café, (alguém diz, me diz, uma entidade qualquer, talvez a vaca santa que divide o apartamento entre os sóbrios e os ébrios): “Esqueceu de escovar os dentes, recolher a toalha, puxar a descarga, dizer bom-dia...”. Acordei cedo como se nada tivesse acontecido, bem cedo, para ninguém me ver; pra ninguém ter que suportar minha cara; pra ninguém, pra mim, para meus eus em todo mundo, sem explicações, um dia após o outro, só bebi e aprontei, caí na sarjeta... Ah, se fosse apenas isso, verbo mais substantivo, cair mais sarjeta; antes, porém, disse e fiz coisas que não queria entender no dia de hoje. Manhã sol e chuva, sóbrio, em recuperação (até a próxima), sei que ela virá. Bate e volta: Um brinquedo dos anos 80. San francisco, CA. Saio correndo, caminhar pela praia, esquecer, tentar não entender o tacitamente inteligível, mentir e fugir sem parcimônia; porém, ela me encontra!; então, “Tô podendo”. Voltou todo gostosão, “nunca erro”, “não tomo remédio, tomo cerveja”, “nunca peço desculpas, nunca errei na minha vida”. Auto-estima tem nome: Bebida. Qualquer uma pode ser, mas gosto mesmo é de cerveja; “amassa-latinha, amassa-latinha, o dia todo, o dia todo; depois disso, não deixo ninguém fazer nada”; “E... tudo bem, tudo certo, sou eu quem manda, vai ter de obedecer a este bêbado, brasileiro, casado, empresário, portador da Carteira de Identidade inscrita no Registro Geral da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Piauí sob n.o. 666.666-6, inscrito no Cadastro de Pessoa Física do Ministério da Fazenda sob n.o. 666.666.666-66, residente e domiciliado na Rua da Pomba Azul, sem número, no Município de São Cristinho, no Estado do...? Mal, péssimo, bêbado, desgraçado; no entanto, gostosão, “tô podendo, deixa tomar mais uma, mais duas, mais mil, até dormir, até desmaiar, tô podendo, tô querendo, e poderei. Não vem que não tem, vou beber, vou morrer nessa alegria”. Passando por cima de tudo e de todos, não és, sois vós; o primeiro, em que pese a segunda pessoa do plural, usa-se o singular, do coletivo para o único, pinguço; és segunda pessoa, não és vossa excelência propriamente dita, já há vários anos, és renomado e afamado, segunda pessoa, litoral, sarjeta, fúria do momento, momento em que marco em nome do pai, nossos pecados, filho, espírito santo, amém.