Porandubas Políticas de 14/11/18

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Abro a coluna com a sabedoria do padre Elesbão.

No confessionário

Numa cidadezinha de Minas, Padre Elesbão estava esgotado de tanto ouvir pecados, ou, como dizia, besteiras. Decidiu moralizar o confessionário. Afixou um papelão na porta da Igreja, dizendo: O vigário só confessará:

2ª feira - As casadas que namoram.

3ª feira - As viúvas desonestas.

4ª feira - As donzelas levianas.

5ª feira - As adúlteras.

6ª feira - As falsas virgens.

Sábado - As "mulheres da vida".

Domingo - As velhas mexeriqueiras.

O confessionário ficou vazio. Padre Elesbão só assim pode levar vida folgada. Gabava-se:

- Freguesia boa é a minha... mulher lá só se confessa na hora da morte!

(Leonardo Mota em seu livro Sertão Alegre)

Acertos

Os primeiros movimentos do presidente eleito Jair Bolsonaro no tabuleiro do poder mostram alguns acertos e recuos. Há uma preocupação em escolher perfis com bom conhecimento dos objetos e ações que deverão cuidar. Mesmo polêmica, a escolha do juiz Sérgio Moro foi bem aceita pela sociedade. Os do andar mais alto da pirâmide - incluindo os pares - podem ter achado precipitada a aceitação. Mas, para o presidente, foi um gol de placa. A ideia de grupos de transição - com boa interlocução com equipes do atual governo - é a garantia de que a nova administração pisará na realidade dos números e situações, sem invenções.

Cautela

Bolsonaro tem sido mais cauteloso no uso da expressão. E garantindo cumprir rigorosamente o livrinho de nossa Lei Maior. O presidente recuou da ideia de fundir os Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente. Está de ouvidos abertos.

Guedes, precavido

Depois que pediu a "prensa" sobre o Congresso, Paulo Guedes também tomou cautela. Os parlamentares são ciosos de suas funções e não gostam de ser censurados ou monitorados. Será difícil, portanto, passar a reforma da Previdência. Guedes, chamado à atenção pelo presidente eleito, ficou mais precavido. Previdência entrará em pauta este ano? A não ser que o presidente eleito, do alto de sua força, use a lábia para convencer deputados e senadores. Qualquer decisão - idade, regras de transição - poderia ajudar, aliviando o ônus a ser enfrentado pelo novo governo em 2019.

Time de primeira

Paulo Guedes está formando uma equipe de primeira para suprir as áreas-chave do Ministério da Fazenda. Mansueto deverá continuar no Tesouro; Ivan Monteiro continuará na presidência da Petrobras e Joaquim Levy deve vir do Banco Mundial para assumir o BNDES. Guedes deve escolher outros quadros importantes para comandar as áreas da Indústria e Comércio, do Trabalho e do Turismo, que ficarão em sua Pasta. Para o Turismo, há um forte lobby pela continuidade de Vinícius Lummertz, que teria o apoio do trade.

Cícero

"É preferível um remédio que cure as partes defeituosas da democracia do que um que as ampute". (Cartas a Ático, II, 1,7)

Descentralização

Pelo andar da carruagem e sabendo que a índole do capitão Bolsonaro sinaliza gosto por trabalho em equipe, é razoável apostar no conceito de descentralização da gestão, ou seja, os comandantes de áreas e setores deverão ter liberdade de gerir, claro, dentro da visão governamental, e serão cobrados por resultados. Aquele que não der respostas satisfatórias será expurgado.

Desmonte da máquina

Barreira imensa a ser escalada: o desmonte da máquina. Até hoje, o governo Temer não conseguiu afastar grupos de petistas que, ao longo de 13 anos, se imiscuíram nas malhas do poder. Houve muita sabotagem nos últimos tempos. Ordens que não foram cumpridas, desleixo, incúria, indisciplina são os resultados que se observam em algumas estruturas. Pois bem, o governo Bolsonaro deve fazer uma limpeza geral. Não será fácil. Os malabaristas se escondem, desaparecem, se fazem de mortos. Muitos continuarão na mamata. A conferir.

Barbárie

Montesquieu em "Meus pensamentos".

A barbárie pertence a todas as épocas e a todos os países...

Não sei como, aconteceu que um turco se encontrou um dia com um canibal.

- Sois muito cruéis, disse o maometano, comeis os cativos que fazeis na guerra.

-E o que fazeis dos vossos?, replicou o canibal. Ah! Nós os matamos. Mas, depois que estão mortos, não os comemos.

"Parece-me que não há povo que não tenha sua crueldade particular".

Mourão e Heleno

Os generais Mourão e Heleno terão forte presença no governo. Mourão não é de ficar na moita. Fala abertamente, tem vontade de palpitar, quer ser um grande cogestor. Terá sala ao lado do presidente. Já o general Heleno, em vez da Defesa, assumirá o GSI, o Gabinete de Segurança Institucional. Assim, ficará no Palácio do Planalto, ao lado do presidente, formando o "núcleo duro". Parece perfil centrado, moderado. Será um conselheiro-mor do presidente. Os nomes-chave da administração passarão sob seus olhos.

Os filhos

Os filhos do presidente serão alvo da mídia, que buscarão sua expressão para abrir polêmica. Tudo que disserem abrirá espaço midiático. O pai já deve ter feito o alerta. Mas tanto o senador quanto o deputado, em Brasília, não resistirão a declarações polêmicas. Poderão causar dores de cabeça. Os bastiões do radicalismo têm neles duas grandes fontes.

Centro radical

Fernando Henrique, vez por outra, expressa tiradas que ganham força na mídia. Fala agora do "centro radical", que juntaria alguns protagonistas do tradicional centro, formando uma frente dura, crítica, forte, capaz de liderar o discurso político. Seria formado por quadros de boa visibilidade e influência, como Ciro Gomes, Geraldo Alckmin, Paulo Hartung, ele mesmo, FHC, e outros que poderiam sair do PSDB. Luciano Huck, o animador, também estaria nesse grupo. Esses nomes seriam o imã para a formação de um grande partido. A vitória de Doria, em São Paulo, praticamente lhe confere domínio do tucanato. Os tucanos antigos querem migrar de ninho.

Fusão

Dos 14 partidos que não conseguiram passar pelo teste da Cláusula de Barreira, cinco estudam a possibilidade de fusão ou incorporação a outros. Querem garantir recursos partidários e tempo de mídia a que os partidos têm direito. São eles: Rede, PC do B, Patriota, PPL e PHS. Mas PTC, PMN, PMB, PSTU, PCB pensam em ir adiante, apoiando-se apenas nas contribuições e doações de seus filiados, sob a esperança de obterem melhor desempenho em 2022.

Doria, a boa costura

Não se duvide de João Doria. Aplicado, determinado, lendo ainda os resultados das urnas, João começa a formar uma equipe de secretários de primeira grandeza. Puxa ministros do governo Temer (o da Educação e o da Cultura), traz o médico que já dirigiu os hospitais Einstein e Sírio-Libanês e ensaia um convite na direção de Henrique Meirelles para assumir a Secretaria da Fazenda. O governador eleito promete uma gestão inovadora. João tem reunido em São Paulo alguns governadores eleitos, antecipando a criação de um Fórum de governadores. Será importante protagonista no cenário político nos próximos tempos. A conferir.

Juntando os cacos

O PT está quebrando a cabeça para decidir o que fazer nos próximos tempos. Continuará ou não a defender o lema "Lula Livre"? Qual será o papel de Fernando Haddad no jogo petista? As alas do partido brigarão pela presidência? Lula continuará a centralizar todas as decisões do partido? E caso seja novamente condenado, o que fazer? São perguntas que atordoam a cuca dos dirigentes partidários.

Villas Bôas

O comandante do Exército, general Villas Bôas, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo do último domingo enfatizou que a eleição de Bolsonaro não quer significar a volta dos militares ao poder. Interessante é que no mesmo dia, no blog do Noblat, na Veja, defendi em meu artigo semanal ponto de vista contrário. Explico: a eleição do capitão reformado significa o fechamento do ciclo da redemocratização que teve início em meados dos anos 80.

Nova era

A eleição de um militar sinaliza novos ventos ao puxar para o cotidiano da política o maior grupo de militares que já participou de pleitos democráticos, a par da convocação inusitada de generais da reserva para formar o núcleo governamental. Um feito e tanto, quando se leva em consideração a índole militar: agir com discrição, cumprir o rito hierárquico, colaborar com governos em postos-chave de comando das Forças Armadas, enfim, evitar a intromissão exacerbada no dia a dia da política. Assim é a cultura militar.

Pelo voto

Os militares ascendem na política cotidiana não por intromissão indevida, mas em função do redesenho institucional, onde se contabilizam o desprestígio da classe política, a indignação social contra o modus operandi dos nossos representantes, a intensa vontade popular de dar um passo adiante. Entram nos salões do poder pela força do voto. Os quase 58 milhões de eleitores credenciam Bolsonaro como a expressão da vontade da maioria.

Outros sinais

Outros sinais de fim de ciclo aparecem na própria engenharia da campanha, em que paradigmas do chamado marketing político foram derrubados, como tempo de rádio e TV (duração maior não ajudando candidatos), dinheiro (não elegendo aqueles com maiores recursos), escolha de representantes na cola do candidato presidencial (PSL fazendo uma bancada de 52 nomes), entre outros aspectos.

Sêneca

"Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou por nós sem que tivéssemos percebido".

Fecho a coluna com mais humor.

Zeca I

Zeca Boca de Bacia fazia a alegria do povo em Campina Grande/PB. Personagem folclórico, amigo de políticos. Dava assessoria informal a Ronaldo Cunha Lima e a seu filho Cássio, prestes a ganhar o mandato de senador. Quando Zeca abria a boca, a galera caía na risada. Certa vez, numa de suas internações na clínica Santa Clara, em Campina Grande, a enfermeira foi logo perguntando:

- Zeca, qual o seu plano (de saúde)?

E ele:

- Ficar bom!

Zeca II

Outra vez, Zeca pegou um táxi em Brasília para ir à casa de Ronaldo Cunha Lima. Em frente à casa do poeta, o taxista cobrou R$ 15. Zeca só tinha R$ 10. Sem acordo, disparou:

- Então, amigo, dê cinco reais de ré!

Livro Porandubas Políticas

A partir das colunas recheadas de humor para uma obra consagrada com a experiência do jornalista Gaudêncio Torquato.

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Porandubas Políticas 4477

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Abro a coluna lembrando momentos cômicos de tempos pesados.

Ditador de plantão

Humberto Castelo Branco, presidente, encontra Carlos Castelo Branco, jornalista:

- Você leu a notícia de um jornal do Uruguai dizendo que é filho do presidente do Brasil?

- Não, presidente. Li uma notícia dizendo que sou filho do ditador de plantão.

O anjo no alto

Entrevista coletiva no Palácio do Planalto. Carlos Castelo Branco pergunta ao presidente Humberto Castelo Branco:

- Como V. Exa. se sentiu ao ler a declaração de Carlos Lacerda chamando-o de Anjo da Rua Conde Laje?

- O anjo fica na parede, no alto, de onde contempla o desfile das prostitutas.

(Da verve de Sebastião Nery)

Primeiros movimentos

Os primeiros movimentos do presidente eleito começam a mostrar seu estilo de jogo. Trata-se de um protagonista que joga avançado, no ataque, evitando a retaguarda. Sua ideia de enxugar a Esplanada dos Ministérios para 15 ou 16 Pastas ganha aplausos na opinião pública. E por escolha de pessoas com bom trânsito, a partir do juiz Sérgio Moro, o perfil mais admirado e elogiado na praça. A amplitude que deseja dar ao Ministério da Justiça significará que o foco no combate à corrupção continuará aceso.

Moro na Justiça

A aceitação do juiz Sérgio Moro, de aceitar o encargo do Ministério da Justiça, com escopo ampliado, foi um gol de placa de Bolsonaro, mesmo sob críticas de patamares da intelectualidade e da mídia. Moro sinaliza ímpeto em sua gestão moralizadora. O juiz, ao aceitar de pronto a missão, abandona a carreira. Para muitos, principalmente petistas e opositores ao novo governo, sua escolha sinaliza um viés antilulista, dando margem às especulações de que não teria sido justo e imparcial na condenação de Lula. Daí a onda que se forma, de que o juiz ajudou Bolsonaro a se eleger e, agora, é recompensado. A campanha de "Lula livre" ganhará força.

STF na mira

Especula-se que o juiz Moro, na verdade, está de olho no STF, para onde seria guindado dentro de dois anos, tempo em que a Corte abrirá vaga com a aposentadoria do decano Celso de Mello, que chegará aos 75 anos. Bolsonaro já sinalizou nessa direção. Tirar um juiz de 1ª instância e jogá-lo na Corte Suprema seria uma decisão de muita polêmica. Coisa diferente de puxar para a Corte um ministro da Justiça. A nomeação seria algo mais corriqueiro. Quanto à decisão de Moro, alguns acham que deveria passar um tempo antes de ingressar na política. Ele acaba de dizer que jamais concorrerá a cargo eletivo. O fato de ingressar no Poder Executivo, para alguns intérpretes, não significa ingresso na política.

Juiz e política

Juízes italianos, que trabalharam na Mani Pulite, a operação Lava Jato da Itália, até defendem a entrada de magistrados na política, mas não de maneira abrupta, durante o tempo em que ainda operam nas frentes de combate à corrupção. Lá, o juiz Giovanni Falcone, apontado por Sergio Moro como sua inspiração para deixar a toga e assumir cargo no governo, foi um dos responsáveis por deflagrar a operação Mãos Limpas no país, tendo, antes, trabalhado contra a máfia siciliana Cosa Nostra.

Inspiração

Diz Moro: "Lembrei-me do juiz Falcone, muito melhor do que eu, que depois dos sucessos em romper a impunidade da Cosa Nostra, decidiu trocar Palermo por Roma, deixou a toga e assumiu o cargo de Diretor de Assuntos Penais no Ministério da Justiça, onde fez grande diferença mesmo em pouco tempo. Se tiver sorte, poderei fazer algo também importante".

Falcone no governo

Falcone construiu sua trajetória em Palermo, na Sicília. Em 1991 aceitou um cargo no Ministério da Justiça no governo de Giulio Andreotti. Naquele momento, o governo italiano estava pressionado pela opinião pública a investigar a máfia na Sicília. A pressão foi causada, sobretudo, após a morte de Salvo Lima, político do partido Democracia Cristã e aliado de Andreotti. No Ministério da Justiça, o juiz assumiu o cargo de Diretor-Geral de Investigação Criminal, sendo bem-sucedido. Amigos de Falcone acreditavam que o convite era uma armadilha para afastá-lo das investigações locais. "Foi a decisão correta porque a luta contra a máfia começava em Palermo, mas só poderia ser vencida em Roma", disse seu amigo, o juiz Ignazio de Francisci. Foi morto após a Suprema Corte italiana confirmar as condenações de mafiosos feitas por ele em Palermo.

O atentado

Em 23 de maio de 1992, foi vítima de um atentado, uma carga de 400 quilos de TNT enterrados sob o asfalto da estrada para o aeroporto de Palermo. Além do juiz, morreram também a sua mulher e três guarda-costas. Seis meses depois, foi morto o procurador Paolo Borsellino, em um atentado com um carro bomba, carregado com 100 quilogramas de dinamite, numa autoestrada em Palermo.

O astronauta

O astronauta Marcos Pontes, escolhido para comandar o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação, também é objeto de polêmica. Trata-se de uma pessoa simpática, sempre sorridente, mas pairam dúvidas sobre as condições que preenche para administrar uma área que exige conhecimento. Um leitor me lembra: ele é formado pelo ITA, uma exemplar escola de engenharia e está no métier há décadas. O Ministério poderá abrigar as universidades públicas. O astronauta está cheio de boas intenções, mas a comunidade acadêmica está com um pé atrás.

Guedes, o arquiteto da economia

Paulo Guedes, que dará forma à economia, compõe sua equipe, abre conversas a torto e a direito, ganha poder à medida que entra nos domínios do amplo ministério que comandará. Guedes está cercado de expectativas, com o mercado apostando forte em sua visão liberal-privatista. Gostaria ele de ver parte da reforma da Previdência aprovada ainda este ano, pelo menos a que abriga a questão da idade para aposentadoria. Não será fácil. O presidente eleito tem dúvidas sobre o modelo de capitalização que Guedes quer imprimir na Previdência Social.

Lorenzoni

Como deputado, Onyx Lorenzoni não era confinado, como dizem alguns comentaristas, no grupo menos qualificado da Câmara. Falou alto no microfone. Foi um dos mais destacados atacantes do petismo/lulismo, levando adiante a bandeira liberal do DEM. Liderou grupos e teve importante desempenho como relator das 10 Medidas contra a Corrupção. Graças a suas habilidades culinárias, aprovadas pelo pequeno grupo que frequentava seu apartamento em Brasília, liderou o projeto Bolsonaro. Assim atesta seu amigo, o eleito senador Major Olímpio. O pequeno grupo fez germinar a seara que acabou se alastrando pelo país.

Major Olímpio

O senador eleito será uma das extensões mais firmes do governo Bolsonaro no Congresso. Com mais de nove milhões de votos obtidos em São Paulo, deverá ser um perfil de forte expressão na Câmara Alta, com possibilidade de vir a ser líder do governo ou líder da bancada do PSL. Tem boa expressão e coordenou uma campanha bolsonarista bem-sucedida no maior colégio eleitoral do país, onde desbancou o candidato Eduardo Suplicy.

Articulação direta

Entremos, agora, no modus operandi do governo Bolsonaro. Lê-se que, ao invés de fazer uma ampla coligação partidária, o capitão teria inclinação para fazer uma articulação direta, olho no olho, palavra na palavra, com cada parlamentar. Ou seja, o presidencialismo de coalizão daria lugar ao bolsonarismo, expressão que mostra a nova modelagem a ser posta em prática. Para tanto, ele poderia contar com a simpatia dos integrantes da bancada da bala (segurança), da bíblia (evangélicos) e do boi (agronegócio). Essas bancadas somariam cerca de 250 parlamentares na Câmara. A ideia seria a de atender demandas setoriais das bancadas e, por conseguinte, cooptar seu apoio. Essa modelagem resistirá ao tempo?

Pragmatismo

Esse é o busílis. Os parlamentares são afeitos ao jogo de recompensas. E o jogo pressupõe não apenas atendimento de demandas temáticas, mas espaços na estrutura governamental. A justificativa é simples: a política visa a conquista do poder. E a conquista do poder, por sua vez, implica ganhos na máquina administrativa. Com esses espaços e nomeações, o parlamentar aumenta seu cacife e obtém mais prestígio nas bases. Essa corrente forma o presidencialismo de coalizão. É possível, até, fazer-se uma articulação direta, mão na mão; depois de algum tempo, o toma lá, dá cá vai aparecer. Em suma, a base de apoios do governo Bolsonaro retomaria, mais cedo ou mais tarde, o modelo tradicional. Passaria um tempinho na articulação direta até se deparar com a real politik.

Mensalão

Urge lembrar que o mensalão, composto nos tempos de Lula, começou com a "compra" isolada de parlamentares. Em vez de se firmar no apoio de grandes partidos, Luiz Inácio teria orientado o então ministro José Dirceu a cooptar isoladamente cada parlamentar. Deu no que deu.

Afastamento

O presidente eleito não deve desconsiderar os fundamentos da nossa tradição e posicionamento no cenário das relações internacionais. Tensões colocam o país em situação desconfortável com as declarações do presidente eleito sobre as relações com o Mercosul (Argentina, Paraguai, Uruguai), União Europeia, China (nosso principal parceiro comercial), países árabes e muçulmanos, desprezando três bilhões de consumidores, um quarto do mercado mundial. Acende-se sinal amarelo.

Peça-chave

O ministro das Relações Exteriores, a ser escolhido, será peça-chave para garantir portas abertas com os países que se surpreenderam com a sinalização diplomática feita pelo presidente Bolsonaro. A conferir.

Estética simples

As fotos não poderiam ser mais reveladoras. O presidente eleito falando atrás de uma mesa simples, sob um fundo onde se via uma bandeira do Brasil pregada na parede com durex. Ao lado, a tradutora de sinais. Noutra cena, o capitão toma café da manhã, cortando o pão e jogando nele leite condensado. A mesa está sem toalha. Tudo muito rústico. Simples. Natural. A produtora de campanha está numa garagem nos fundos da casa do empresário Paulo Marinho. Sem sofisticação tecnológica. Sem grandes equipamentos. Coisa rudimentar. O métier dos tradicionais marqueteiros virou de cabeça para baixo. Ufa!

A expressão bolsonarista

O presidente eleito não procura esconder cacoetes linguísticos. Ancora-se em uma linguagem coloquial, cheia de oks, "mandando ver", "botar pra quebrar", "cortar a cabeça", sem querer parecer alguém que escolhe o melhor termo para se expressar. É assim com todos, jornalistas ou assessores. Transmite impressão de ser sincero em suas convicções. Mas os exageros causam medo, mesmo sob desculpa de que, em certos casos, usa figuras de linguagem: "fuzilar a petralhada", por exemplo.

Livro Porandubas Políticas

A partir das colunas recheadas de humor para uma obra consagrada com a experiência do jornalista Gaudêncio Torquato.

Em forma editorial, o livro "Porandubas Políticas" apresenta saborosas narrativas folclóricas do mundo político acrescidas de valiosas dicas de marketing eleitoral.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 60,00.

Porandubas Políticas de 11/7

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Abro a coluna com uma historinha do Rio de Janeiro.

(por Gaudêncio Torquato)

Lugar de almirante

Sandra Cavalcanti era deputada da Arena, foi ao interventor Faria Lima:

- Almirante, tenho três reivindicações do partido para tratar com o senhor.

- Pois não, deputada.

- A primeira é a transferência de um fiscal do Estado para a capital. Ele está no interior, mas é um funcionário antigo e já merece uma posição melhor.

- Deputada, lugar de fiscal é na fiscalização. Qual é a segunda reivindicação?

- É um gari doente, governador. Não pode ficar tomando chuva. Queríamos levá-lo para a sede da Comlurb, mas o Marcos Tamoyo não concorda. O senhor podia falar com ele?

- Deputada, lugar de gari é na rua. Qual é a terceira?

- Uma professora de Campo Grande. Por problemas de família, precisa vir para a Secretaria.

- Lugar de professora é na escola, deputada. Só isso?

- Só, governador. Muito obrigada, até logo. E antes que me esqueça: lugar de almirante é no navio.

E foi embora.

(Da verve de Sebastião Nery)

SDS

A menos de três meses das eleições, a pergunta recorrente continua sem resposta: quem vai para o 2º turno? Os horizontes estão fechados. Será que há alguma semelhança com o pleito de 1989? Cerca de 20 candidatos, os protagonistas do centro dispersos e dois candidatos das margens ganhando passaporte para o segundo tempo do jogo: Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva. Hoje, as interrogações se multiplicam. SDS - Só Deus sabe.

Jus sperneandi

Direito de espernear. Mais que isso: esperneando o PT chama a atenção. Essa é uma razoável explicação para a "favrética" decisão do juiz plantonista do TRF-4, desembargador Rogério Favreto (donde pinço o neologismo), que autorizava a libertação do ex-presidente Lula. Só faltou Sua Excelência expressar de público sua condição de "petista de carteirinha". Foi assessor do petismo por muito tempo. O fato abriu polêmica nessa friagem que toma conta do Sul e do Sudeste nesses dias de reversão de expectativas com o desempenho de nossa seleção na Copa do Mundo na Rússia.

A estratégia do PT

De pronto, urge lembrar que a recorrente e sempre anunciada estratégia do PT é a de utilizar todos os meios possíveis para alcançar a meta eleitoral: elevar seu candidato presidencial ao 2º turno, fazer uma grande bancada de deputados Federais e estaduais, livrar-se da enrascada que queima atores políticos e, acima de tudo, passar para outros protagonistas a culpa pelos graves entraves que impedem a caminhada do país rumo ao crescimento. O PT foi o responsável pelo buraco gigantesco em que está afundado o país. Usando artifícios e mistificação, tenta transferir essa carga pesada para os ombros do atual governo.

Animando a militância

O fato é que a decisão "favrética" atingiu o objetivo. Pegou de chofre a população ainda mastigando os restos da derrota dos nossos jogadores na Copa. A soltura de Lula decidida por Sua Excelência, o desembargador Rogério, funcionou como um beliscão na quase adormecida militância do PT, que acordou para vibrar com o episódio. A inesperada entrada em ação do juiz Sérgio Moro, que está de férias, era o que o PT também queria. Ou seja, o despacho de Moro determinando a continuidade da prisão é, para o PT, prova de parcialidade do juiz de Curitiba em relação aos processos de Lula, sob sua responsabilidade.

Querela jurídica

A querela jurídica que se instalou fez com que o caso Lula, que ameaçava entrar na gaveta da rotina, voltasse às manchetes. O juiz, mesmo de férias, pode entrar em ação, se seu nome é ventilado numa polêmica decisão, dizem juristas do porte de Carlos Mário Velloso. Juiz é juiz em todos os dias. Mesmo em dias de descanso. Até se aposentar. Já outros dizem que Moro deveria ter ficado em silêncio ou jogado o caso para o juiz original da 2ª instância, o desembargador Gebran Neto. A querela mexeu com os brios de membros do MP, que pedem ao CNJ a punição de Favreto. E bateu na porta do STF, onde a presidente Cármen Lúcia acabou produzindo uma nota recheada de platitudes.

Politicagem

A volta de Lula ao noticiário central faz parte da liturgia que o PT ensaia para inscrever seu nome como candidato, dia 15 de agosto, puxando os militantes para as ruas, abrindo o verbo solto de Gleisi Hoffmann, continuando a farta coleção de recursos - que deverão, ainda, chegar ao TSE, ao STJ e ao próprio STF. Para lembrar: só o caso do Tríplex no Guarujá ganhou 75 recursos. O PT deverá ir com Lula ao processo eleitoral até que a mais alta Corte dê uma decisão para ele sair do páreo. Já se sabe que o partido não se conformará com eventual decisão do TSE de não aprovar sua inscrição como candidato. Estão previstos recurso ao STJ e, caso este confirme posição do TSE, mais recurso deverá bater no STF.

Laurita dá um carão

A presidente do STJ, desembargadora Laurita Vaz, acaba de dar um "carão" no desembargador Rogério Favreto. É o que podemos aduzir de sua decisão de negar um dos muitos habeas corpus que entraram na Corte em defesa de Lula. Ela disse que o plantonista não poderia ter mandado libertar o ex-presidente no domingo. Segundo ela, Favreto causou "perplexidade" e "intolerável insegurança jurídica". E teria ocorrido um "tumulto processual, sem precedentes na história do Direito brasileiro". Defendeu Sérgio Moro e a atuação do presidente do TRF-4, desembargador Thompson Flores. A presidente do STJ foi dura e direta. Considerou a decisão de Rogério Favreto como "inusitada e teratológica", uma vez que está em "flagrante desrespeito" a decisões já tomadas pelo TRF-4, pelo STJ e pelo Supremo Tribunal Federal.

Haddad

Fernando Haddad, dessa forma, ficará no banco aguardando sua vez de participar do jogo. Sob o impulso das cartas de Lula, da prisão, e dos recados do seu exército de advogados, Haddad dará um salto - de 4% para 12%. Pode até avançar mais. A depender do clima social em setembro, o ex-prefeito de São Paulo poderá crescer ou permanecer em um patamar próximo aos 15%. Correrá aos Estados com o fito de frequentar os palanques de candidatos petistas ao governo e ao Parlamento. Essa estratégia do PT foi bem pensada. O Partido não estará morto, como chegou a desabafar o ex-todo poderoso ministro José Dirceu ao aposentado Newton Hidenori Ishii, o Japonês da Federal, ressuscitando das cinzas a que tem sido jogado desde o mensalão.

Indefinições

O PT, portanto, ganha mais espaço dentro da algaravia nacional, usando Lula como aríete para abrir muralhas e invadir arsenais de votos. Busca firmar parcerias com partidos de esquerda, sendo sua jóia da Coroa o PSB da viúva de Eduardo Campos. O PC do B e o PSOL estarão com o candidato petista que vier a disputar o 2º turno. Mas a hipótese de o PT ficar fora do segundo tempo da disputa eleitoral prevalece. E quem está sendo aguardado para os 45 minutos finais?

2º turno

A voz corrente, essa que esquenta as conversas de fim de tarde e de noites homenageando Baco, é de que uma vaga pertence ao ex-capitão Bolsonaro. Este consultor acaba de chegar do Nordeste onde sentiu o crescimento da onda bolsonariana. É evidente que o deputado continua frequentando os primeiros lugares nas projeções. Mas este consultor ainda não se convenceu de que sua passagem para o 2º turno é garantida. Entre as razões, o fato de que, até o momento, disporá de ralos segundos para explicitar seu pensamento no espaço de mídia eleitoral. Ademais, ele próprio reconhece ignorância sobre os grandes temas nacionais. Lembre-se que 65% do eleitorado confessam ainda não ter escolhido seu candidato.

A onda racional

Estamos surfando nas ondas bolsonariana, gomista (de Ciro Gomes) e silvana (de Marina Silva). São fundamentalmente ondas emotivas, comandadas pelo coração. Há certo fervor por parte dos surfistas dessas ondas. Mas a onda racional ainda não deu as caras. Trata-se da onda que agrega os polos mais críticos de formação de opinião, como contingentes de classes médias, reunindo profissionais liberais, pequenos e médios empresários, proprietários, grupos da burocracia estatal, etc. Esses eleitores examinam de forma atenta a moldura eleitora, fazem comparações, ouvem discursos e deixam para depois uma tomada de posição. Consciente. Mais cabeça e menos coração. A tendência é que esses núcleos decidam perfilar ao lado de candidaturas mais centradas e menos engajadas nas extremidades do arco ideológico.

Quem?

Deixo ao critério do leitor/eleitor responder a pergunta: quem será a atração central? Deixo aqui uma lista: Álvaro Dias, João Amoedo, Flávio Rocha, Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles.

Horizontes nos Estados

Nos Estados, persistem as nuvens plúmbeas, pesadas, cinzentas. Com exceção de alguns poucos, as apostas nos Estados não chegam a sinalizar vencedores. Em Pernambuco, Ceará e Bahia, a paisagem parece mais clara, indicando a reeleição dos atuais governantes, Paulo Câmara (PSB), Camilo Santana e Rui Costa (PT). Ganhariam o passaporte pelo bom desempenho em suas tarefas. E mais: os índices de indefinição nos Estados são altos. O NV - Não Voto (abstenções, votos nulos e brancos) oscila entre 40% a 45%. Muito alto.

Rejeição

Atenção, candidatos e assessores: vejam com cuidado e preocupação os índices de rejeição de seus candidatos. Há maneiras de atenuar esse efeito deletério, não de eliminá-lo. No meu blog, www.observatoriodaeleicao.com, vocês poderão conferir algumas abordagens para administrar o fenômeno.

O discurso de Itabaiana

Fecho com Jessier Querino, este famoso cronista oral da política nordestina. Aqui, o trecho inicial do famoso discurso de Amâncio Tranquilino Sossegado em Itabaiana/PB. Candidatos, que lógica calibrará seus discursos?

"A lógica política experimental pós-aristotélica do município de Itabaiana causou profunda decodificação moral, cética, estóica e principalmente existencial. Há aqueles que procuram obter a todo custo uma hegemonia política sectária forte, porém dogmática, utilizando meios plutocráticos pseudo-progressista, dentro de uma visão aristocrática, independente e desqualificada. Dentro desse quadro alienante, retrógrado, discriminativo e policialesco não podemos nos curvar à mera condição de espectador que ali vivem tão somente deste processo minoritário e repressivo. Precisamos dar um basta. Basta à subjugação hierárquica endocêntrica. Basta à ação tática provocativa intransigente. Chega de avaliações restritivas e pessoais. Itabaiana precisa de uma reflexão ampla e independente. Urge atender às aspirações prioritárias reais do nosso povo. Com intuito de promover uma coalizão consensual, descompromissada da situação tecnocrática legalista existente, propomos uma profunda transformação pragmática e pluralista de todos os representantes políticos e lideranças comunitárias deste município".

Porandubas Políticas n. 4370

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Abro a coluna com JK.

JK?

Anos de chumbo grosso. Tempos magros, época de fechadura braba. Falar em Juscelino Kubitschek (JK) era, no mínimo, pecado mortal. Mudança das placas dos carros, as chamadas alfanuméricas. A Câmara Municipal de Diamantina oficia ao CONTRAN solicitando as letras JK para as placas dos carros do município, "como uma forma de homenagear o grande estadista John Kennedy". O CONTRAN não atende. Um conterrâneo de Juscelino desabafa:

- Esse pessoal do Conselho deve ser republicano, eleitor do Nixon.

(Historinha de Zé Abelha)

Estado de expectativa

Passada a turbulência da greve dos caminhoneiros, o país passa a viver um estado de expectativa. Existe alguma pedrinha do dominó a ser empurrada? Que setores poderão gerar desarmonia social, mobilização das ruas, confusão? Sabemos que alguns "exércitos" estão de prontidão. Não me refiro à prontidão das Forças Armadas, mas à articulação que setores radicais podem estabelecer para influenciar o clima do "quanto pior, melhor". Oportunistas, aventureiros, doidivanas, mercenários estão de olho nos horizontes.

Urubus

Como urubus disputando a carniça, vândalos querem tirar proveito para disputar o melhor pedaço político. Pedem ordem, mas pregam a bagunça, querem o império da lei, mas defendem intervenção militar. Faixas com esse apelo são usadas em movimentos de 10, 20 ou 100 pessoas. Mas o povão mesmo está afastado dessa artificial movimentação. A cúpula militar, por meio de seus chefes, entre eles o comandante do Exército, general Villas Bôas, já repeliu as insinuações.

Prandi

"Há uns malucos querendo a ditadura. Eles não sabem o que querem. Nunca viram, não têm ideia do que foi a intervenção militar no país, porque não têm formação. Não sabem isso e também não sabem mais nada". Sociólogo Reginaldo Prandi, um dos desenvolvedores das pesquisas de opinião no Brasil.

Classes médias

Vejamos. As classes médias, A, B e C, tendem a decidir sob critérios racionais. O poderoso grupamento de profissionais liberais, que forma opinião, está atento, observando o cenário, avaliando quadros e começando a se posicionar. O estrato médio mais baixo, o de classe C, tende a desenvolver um posicionamento mais duro, menos flexível e mais condizente com a ordem pública. Nele estão incluídos núcleos bolsonaristas. A esse contingente, juntam-se pequenos e médios proprietários de terras, comerciantes e alguns cantões mais conservadores. Mas as classes médias A e B tendem a formar um pensamento mais comedido, menos espalhafatoso e mais compromissado com valores democráticos.

As margens

As margens sociais procuram acalento, segurança, um pouquinho mais de grana no bolso, e muitos ainda procuram refúgio no cobertor do Estado. São propensos a aceitar e a admirar perfis populistas, demagogos ou representantes da política de cabresto, que abriga benesses e bolsas. Constituem massas amorfas que votam na esteira do fisiologismo em pleno vigor em espaços menos desenvolvidos do país. Como tal, são passíveis dos balões de ensaio e de inputs que saem dos polos de informação e opinião encaixados no meio da pirâmide. Portanto, o voto mais volúvel habita com intensidade a base social.

A agitação e a eleição

Uma das indagações recorrentes é: qual a influência da agitação de rua no processo eleitoral? Outra: quem está interessado na desorganização social? É claro que ruas sedentas de demandas terão peso no processo eleitoral. Principalmente em matérias que afetem diretamente o bolso do consumidor. Digamos que daqui a 60 dias, quando termina o prazo do desconto de R$ 0,46 no litro do diesel, organizações tentem voltar ao tema e cobrem do governo a continuidade do movimento. Políticos identificados com demandas mais claras e fortes poderão se beneficiar. Uma eleição sob tumulto melhora ou piora a situação de alguns protagonistas.

Mas há um perigo

Se as ondas sociais forem conduzidas sob a bitola eleitoreira, as massas poderão flagrar interesses espúrios, misturados a interesses legítimos de categorias, e dar o troco, que tende a ocorrer em forma de bumerangue: castigo, desprezo e o NV - não voto - em determinados candidatos. Os partidos de esquerda, a partir do PT, podem querer se aproveitar do tumulto social para melhorar sua performance. A operação corre o risco de ser um fracasso. Mesmo que tenha como meta tirar Lula da prisão.

Brancos, nulos e abstenção

A indignação social, com a consequente repulsa aos políticos, poderá aumentar, no pleito deste ano, o número de votos brancos, nulos e abstenções. Da média histórica entre 30% a 32%, podemos saltar para 40%. Vejam o que acaba de acontecer em Tocantins: abstenções, brancos e nulos somaram mais de 49% na eleição do último domingo para governo do Estado, maior que a soma dos dois candidatos que vão ao 2º turno. Aliás, em pelo menos 11 cidades do Tocantins, as abstenções, votos nulos e brancos superaram a quantidade de votos válidos.

Kátia e Lula I

A senadora Kátia Abreu (PDT-Tocantins) tornou-se mais conhecida fora de seu Estado como presidente da Confederação Nacional da Agricultura (2008-2011) e, mais tarde, como ministra da área no segundo mandato de sua amiga Dilma Rousseff (PT). Embora então no PMDB, votou contra o impeachment de Dilma e tornou-se feroz adversária do presidente Michel Temer. Acabou expulsa do partido no ano passado e passou para o PDT de Ciro Gomes.

Kátia e Lula II

Neste último domingo, concorreu ao cargo de governadora de Tocantins com o apoio do PT e do ex-presidente Lula, que fez uma carta lida em vídeo pela senadora Gleisi Hoffmann. O vídeo foi um bumerangue. Afundou Kátia Abreu. A eleição para substituir o governador cassado, Marcelo Miranda, vai para o segundo turno, a será disputado por Mauro Carlesse (PHS), governador interino, e o senador Vicentinho Alves (PR). Se vale como aperitivo para as eleições de outubro, a demonstração de força de Lula e do PT foi um tremendo fracasso.

Greve de caminhoneiros

O governador Márcio França, de São Paulo, teve um bom desempenho na negociação com os caminhoneiros. Enquanto o governo Federal tateava na solução, não contando com a presença de parcela ponderável das lideranças, o governo de São Paulo tomou a iniciativa de fechar o acordo. Mas a empreitada foi bem-sucedida graças à forte articulação empreendida por Marcos da Costa, presidente da OAB/SP, que funcionou como um elo entre os governos estadual, Federal e lideranças. Marcos foi imprescindível e, graças ao seu esforço, ocorreu o desbloqueio da rodovia Regis Bittencourt. Onde a resistência era maior.

França, habilidade

Já o governador Marcio França, às voltas com a questão do desconhecimento de seu nome, ganhou ampla cobertura da mídia, podendo sua disposição e sua liderança na condução do processo e conciliação vir a ter grande efeito na eleição de outubro. O governador, que assumiu o lugar de Geraldo Alckmin, é candidato à reeleição pelo PSB.

Articulação social

Na eleição deste ano, na esteira da organicidade social, o fator articulação será um dos mais importantes do marketing eleitoral. Nunca a sociedade brasileira esteve tão organizada. Uma miríade de entidades - sindicatos, federações, núcleos, associações, grupamentos, setores, áreas e categoriais profissionais - leva adiante a tarefa de mover a sociedade. Logo, a articulação com entidades e líderes se torna fundamental para o bom desempenho dos atores políticos. Mas os velhos marqueteiros não entendem disso. Acham que comunicação é apenas propaganda eleitoral. Muitos ainda não abandonaram a Idade da Pedra.

Os limites do marketing

Os administradores públicos se esforçam para criar uma identidade. Criam símbolos, sejam marcas, logotipos, slogans, etc. para serem reconhecidos pelo eleitor. A cruz de Cristo é, seguramente, um dos mais fortes símbolos da Humanidade. O sistema cognitivo das pessoas o associa imediatamente a Jesus. Essa tradição de uso de sinais é milenar. O marketing político faz uso deles para deixar o candidato mais próximo ao eleitor. Já o marketing governamental também neles se apoia para identificar o gestor - presidente, governador, prefeito e outros protagonistas. Ora, separar os limites entre marketing governamental e marketing eleitoral é uma tarefa quase impossível. Os limites são tênues. Candidatos se esforçam para ser reconhecidos por sua obra, que é geralmente associada a um sinal. É a estética estabelecendo ligação com a semântica.

A multa de Doria

Feita a análise conceitual acima, vamos ao caso. A juíza Cynthia Tomé, da 6ª vara da Fazenda Pública de São Paulo, impõe multa de R$ 200 mil, abrindo nova ação de improbidade contra o ex-prefeito João Doria (PSDB). Argumenta que ele faz promoção pessoal com o uso da expressão "Acelera SP". Tem sentido isso? Jânio usava o cabelo desgrenhado e olhos esbugalhados como marca. Juscelino Kubitschek usava o famoso JK como marca. Hoje, sua identidade seria proibida.

Insensatez?

Muitos usam ainda o V da Vitória, símbolo usado por Winston Churchill por ocasião da vitória das forças aliadas contra as forças nazistas de Hitler. Coisa natural. Tentar, agora, despregar o sinal do "Acelera SP" da imagem de João Doria é arrematado viés jurídico. Ele está terminantemente proibido de usá-lo. Imaginemos o ex-prefeito flagrado ao brincar com uma criança e usar o gesto. Mais 200 paus de multa. Ou mais. Meu Deus, quanta insensatez.

Fecho a coluna com o presidente Dutra.

Escola para quê?

O presidente Dutra tinha um auxiliar capixaba, oficial do Exército, gago. Quando Dutra dava uma ordem, ele ficava mais gago ainda. Resolveu dar um jeito de curar a gagueira. Soube que o Méier tinha uma escola para gagos, tocou para lá. O endereço que levou não coincidia. Procurou no bairro todo, nada. Foi ao português da esquina, desses de bigode e tamanco, cara de quem desceu na praça Mauá:

- O sesesenhor popopodia me inininformar se aaaqui temtemtem uma escola para gagagago?

- Mas o senhor já fala gago tão bem, para que quer escola?

(Do acervo do imperdível Sebastião Nery).

O uso dos nomes em vão

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A incorporação de sobrenomes e apelidos aos nomes próprios de conjuntos parlamentares faz parte do jogo eleitoral

 

“Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”. (Êxodo, capítulo 20, versículo 7).

O estágio civilizatório de um povo é medido por grandes e pequenos atos, entre as quais avanços, descobertas, tecnologia, desenvolvimento econômico e social, este último compreendendo formas de pensar e de agir, atitudes e gestos. A cultura política, portanto, deriva da forma de pensar e agir daqueles que dela participam, representantes do povo, governantes e simpatizantes, entrando aqui os militantes.

Quando esses grupos assumem posições que descambam para o perigoso terreno da galhofa, é razoável intuir que a régua civilizatória do território em que habitam está meio torta. Algo parece fora do tom. Sinais extraídos dos climas emotivos que animam bandas partidárias apontam para resquícios de barbárie, passos erráticos, movimentos canhestros, coisas ridículas. Querem um exemplo?

A decisão de deputados e senadores do PT de solicitar aos presidentes das duas Casas congressuais a adição do nome Lula às suas respectivas designações parlamentares. Na contrapartida, adversários começam a solicitar que também a seus nomes seja agregado o sobrenome Moro, em referência ao prestigiado juiz Sérgio, de Curitiba. Uma ridicularia de primeira grandeza. Manobra oportunista, demagógica, sob o cobertor de um marketing mentiroso a ser intensificado nos próximos tempos, face à polarização aberta e ao tiroteio recíproco entre as alas do lulo-petismo e adversários encastelados em alguns partidos. Na ponta direita, a decisão destemperada dos petistas gera também a incorporação do sobrenome Bolsonaro aos nomes dos parlamentares alinhados ao presidenciável e deputado Jair.

Uma comédia.

É evidente que a incorporação de sobrenomes e apelidos aos nomes próprios de conjuntos parlamentares faz parte do jogo de pressões e contrapressões que permeará todo o processo eleitoral, que ora se inicia. Que significado os recém batizados tentam impingir ao eleitor? A luta do Bem contra o Mal. Cada lado quer aparecer como o Bem. Todos vestem a pele do mocinho, deixando o traje de bandido para o outro. Repúdio a Darth Vader e aplausos para Luke Skywalter, de Star Wars. Robin Hood contra os ricos. Mas a questão é: quem pode no PT envergar o manto de Robin Hood quando se sabe que este partido se meteu na rapinagem geral? As bandas tentarão amplificar seus slogans até as eleições.

O fato é que as “qualidades morais” dos protagonistas da esfera eleitoral serão exibidas, sob uma teia de simulações e dissimulações, versões sem eira nem beira, e, pior, com a apropriação de sobrenomes de outros. O eleitor menos esclarecido poderá ser engabelado. Seu voto seria também em personagens que não o representante. Arrematada mistificação.

Ninguém será inocente usando o nome de Deus em vão, diz a Bíblia. Na esfera política, os oportunistas terão mais chance de entrar nos desvãos do inferno.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato>

 

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